Como é sabido, trabalho em dois colégios, um particular e outro público.
Em reunião de pais no colégio particular, somos instruídos a não expor os problemas e até mesmo os avanços das crianças para os outros pais, evitando assim comparações. Além disso, evitamos falar o que os pais devem fazer com os filhos, exemplificando: deixar de castigo ou coisas do gênero. E quando é necessário chamar algum pai, fora do dia da reunião, por conta do desempenho ou comportamento, dificilmente conversamos com os pais, somente a coordenação o faz, a fim de nos resguardar um pouco.
Há muito tempo eu não lecionava em colégio público e tão pouco ministrava as reuniões de pais. Quando fui colocada para dar uma reunião de pais em uma sala onde 85% dos alunos estão com defasagem de aprendizagem. Vale lembrar que aqui
Eu fui dar a reunião, da mesma forma que faço no colégio particular. E percebi que os pais não estão acostumados, eles ficaram perdidos, pois queriam ouvir reclamações ou elogios e até mesmo o que fazer com seus filhos ali no meio de todos. Não consegui expor ninguém ao ridículo e muito menos falei que os alunos precisavam levar uma bronca generalizada dos pais. Uma mãe me falou que do jeito que eu falava parecia que eu não ligava para os alunos.
Nesta semana, foi preciso chamar a mãe de 2 meninas devido ao comportamento totalmente inadequado em sala de aula (xingando colegas, dormindo em sala, dançando e assim vai).
A mãe da primeira menina foi logo cedo e com muita pressa, e fui chamada juntamente com outra professora. Ficamos ali na porta da secretaria em pé falando com a mãe. A outra professora, falou tanto e tanta coisa, que eu fiquei envergonhada pela forma que ela tratou a mãe. Despejou um monte de verdades de uma forma tão sem meias palavras, que fiquei sem nem o que dizer. A mãe disse que ia bater na menina e que ia colocar ela pra trabalhar ou cuidar de alguma criança a tarde e a professora disse que era isso mesmo, que tinha que ter responsabilidade, que uma vez que não queria estudar, tinha que fazer algo útil na vida. Imaginem minha cara, de tipo: ué, criança não tem que estudar, para ter um futuro decente?
A segunda mãe chegou logo em seguida, mas só eu fui chamada para conversar com a mãe. Pedi para a mãe sentar no sofá que tinha ali disponível, e falei dos problemas que estávamos enfrentando com a menina e falei da necessidade de mudança de comportamento com relação aos estudos. A mãe ficou olhando para mim, com cara de ué você não vai falar o que eu devo fazer com a minha filha? E ela me disse que ela queria um conselho, o que fazer com a filha dela. Eu respondi que ela devia orientar a filha dela a estudar. E a mãe insistiu: mas como professora?
Fiquei pensando: até que ponto nós professores devemos interferir na educação das crianças? E também até que ponto os professores devem interferir na educação de nossos filhos?
Ana Carolina - @anacarolinaqui



